Ferrovia

2020-12-01
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Há mais  de 200 anos, foi inventada a primeira locomotiva. Em Portugal, o comboio  causou espanto na viagem inaugural entre Lisboa e o Carregado, em 1856.  Durante o resto do século, a linhas multiplicaram-se pelo país, ligando as  principais cidades, democratizando as deslocações dentro e fora do  território. As principais cidades cresceram, urbanizando-se os  subúrbios.


O século XX privilegiou a rede rodoviária, mas confrontados com a  necessidade de desenvolver estratégias de mobilidade mais inclusivas,  económicas e amigas do ambiente, o comboio volta a merecer atenção e  investimento. Aqui, vamos explorar o estado atual do comboio em Portugal, as  vantagens deste meio de deslocação e o impacto que este tem e pode ter nas  nossas cidades.


As primeiras linhas


Depois de um primeiro fôlego de iniciativa privada, o Estado português  tomou as rédeas do investimento ferroviário, ligando Lisboa às proximidades  do Porto, em 1864, e o país à Europa, com a ligação a Madrid, em 1868 (Visão  História: 2020) . A  década seguinte, assistiu à construção e alargamento das linhas entre as  principais cidades, como a Linha do Minho e do Douro e a Linha do Sul.

Chegada do primeiro comboio ao centro  do Porto, em 1896, 20 anos antes da construção da estação de São Bento,  digitalizada da revista Visão História, "A Longa Viagem de  Comboio", Junho de 2020.


No entanto, ao redor das cidades, onde se situavam algumas indústrias e os  campos produtivos, foram várias as experiências privadas de ligar o campo à  cidade, facilitando a circulação de pessoas, produtos e entusiasmando um novo  setor económico em crescimento: o turismo. Entre Lisboa e Sintra, por  exemplo, experimentou-se um monocarril francês chamado Lamarjat, barato e em  madeira, que se colocava sobre a estrada existente, mas que descarrilava  frequentemente, o que levou ao seu abandono. A maioria das linhas suburbanas só passaram para o controlo estatal no  início do século XX, mas algumas incompatibilidades - como a bitola dos  carris - mantêm-se até hoje, dificultando a troca entre linhas e a  homogeneização da rede.


O estado actual


A ferrovia é ambientalmente sustentável, emitindo muito menos carbono do  que o avião ou do que o carro particular. "Ou até emissões zero, se  eletrificada e com energia produzida através de energias renováveis." É  "capaz de transportar em menos espaço ocupado menor número de  passageiros, libertando espaço para outros usos do solo." (Furtado,  2020).


A ferrovia é socialmente inclusiva, facilitando as deslocações a todos,  incluindo aqueles que não têm acesso a meios próprios. Permite "menores  custos para a logística nacional, a redução do congestionamento, a  estruturação do território." A ferrovia não é, contudo, a solução para  garantir o acesso a todo o território. "Não se pode estar a fazer  caminho-de-ferro para servir zonas de baixa densidade a não ser que aí haja  outros tipos de serviços (...) que consegue o rentabilizar. A ferrovia não é  a panaceia para tudo." (Furtado, 2020).


Cartaz de promoção ao regime salazarista. Durante o período do Estado Novo,  a ferrovia ficou esquecida, por oposição à rede viária, que foi francamente  expandida, melhorada e alvo de investimento.

A realidade do transporte ferroviário de passageiros e de mercadorias é  completamente distinta atualmente no nosso país. Por um lado, "Portugal  é dos países da Europa Ocidental com maior peso do comboio no movimento de  mercadorias e dos poucos onde o principal operador do setor é  rentável."


Por outro lado, o número de passageiros transportados tem vindo a diminuir  desde os anos 80, "altura em que se multiplicou o número de autoestradas  e automóveis em circulação. Portugal é o único país da Europa que possui mais  quilómetros de autoestradas e automóveis em circulação." (Furtado,  2020).



Que futuro?


Lançado em 2016, o plano Ferrovia 2020 tem norteado os investimentos  estratégicos a fazer no país, no que ao comboio diz respeito. Atualmente,  estima-se que ficará concluído em 2023. Os objetivos são "aumentar a  competitividade do transporte ferroviário, melhorar as ligações  internacionais e promover a interoperabilidade ferroviária."


O plano define a modernização, eletrificação e expansão de corredores  fulcrais: o Corredor Internacional Norte, o Corredor Internacional Sul, o  Corredor Norte-Sul (Linha do Minho, Linha do Norte) e os Corredores  Complementares (Linha do Douro, Linha do Oeste, Linha de Cascais e Linha do  Algarve).

Novo eixo do Corredor  Internacional Sul (Évora Norte-Elvas/Caia), 80 quilómetros novos de linha,  que permitirão a ligação direta entre o porto de Sines e as maiores cidades  do Sul de Portugal e Espanha. Fonte: Arqpais


Sugestão de leitura


As frases anteriores foram retiradas da obra de Francisco Furtado, “A  Ferrovia em Portugal: Passado, Presente e Futuro”, publicado na colecção  FFMS, que corresponde a um excelente volume para os interessados nesta  matéria. Depois do breve panorama histórico da ferrovia em Portugal, o autor  apresenta a atual situação dos comboios portugueses, as suas fragilidades e  potencialidades. Também se pode ficar a saber mais acerca dessa obra  assistindo à sua apresentação, disponível online. Terminamos com a seguinte passagem do mesmo livro:


"Melhorar a mobilidade, diminuir o congestionamento e possibilitar um  desenvolvimento sustentado nas grandes áreas metropolitanas do país não pode  ser feito sem o caminho de ferro."