Há mais de 200 anos, foi inventada a primeira locomotiva. Em Portugal, o comboio causou espanto na viagem inaugural entre Lisboa e o Carregado, em 1856. Durante o resto do século, a linhas multiplicaram-se pelo país, ligando as principais cidades, democratizando as deslocações dentro e fora do território. As principais cidades cresceram, urbanizando-se os subúrbios.
O século XX privilegiou a rede rodoviária, mas confrontados com a necessidade de desenvolver estratégias de mobilidade mais inclusivas, económicas e amigas do ambiente, o comboio volta a merecer atenção e investimento. Aqui, vamos explorar o estado atual do comboio em Portugal, as vantagens deste meio de deslocação e o impacto que este tem e pode ter nas nossas cidades.
Depois de um primeiro fôlego de iniciativa privada, o Estado português tomou as rédeas do investimento ferroviário, ligando Lisboa às proximidades do Porto, em 1864, e o país à Europa, com a ligação a Madrid, em 1868 (Visão História: 2020) . A década seguinte, assistiu à construção e alargamento das linhas entre as principais cidades, como a Linha do Minho e do Douro e a Linha do Sul.
No entanto, ao redor das cidades, onde se situavam algumas indústrias e os campos produtivos, foram várias as experiências privadas de ligar o campo à cidade, facilitando a circulação de pessoas, produtos e entusiasmando um novo setor económico em crescimento: o turismo. Entre Lisboa e Sintra, por exemplo, experimentou-se um monocarril francês chamado Lamarjat, barato e em madeira, que se colocava sobre a estrada existente, mas que descarrilava frequentemente, o que levou ao seu abandono. A maioria das linhas suburbanas só passaram para o controlo estatal no início do século XX, mas algumas incompatibilidades - como a bitola dos carris - mantêm-se até hoje, dificultando a troca entre linhas e a homogeneização da rede.
A ferrovia é ambientalmente sustentável, emitindo muito menos carbono do que o avião ou do que o carro particular. "Ou até emissões zero, se eletrificada e com energia produzida através de energias renováveis." É "capaz de transportar em menos espaço ocupado menor número de passageiros, libertando espaço para outros usos do solo." (Furtado, 2020).
A ferrovia é socialmente inclusiva, facilitando as deslocações a todos, incluindo aqueles que não têm acesso a meios próprios. Permite "menores custos para a logística nacional, a redução do congestionamento, a estruturação do território." A ferrovia não é, contudo, a solução para garantir o acesso a todo o território. "Não se pode estar a fazer caminho-de-ferro para servir zonas de baixa densidade a não ser que aí haja outros tipos de serviços (...) que consegue o rentabilizar. A ferrovia não é a panaceia para tudo." (Furtado, 2020).
A realidade do transporte ferroviário de passageiros e de mercadorias é completamente distinta atualmente no nosso país. Por um lado, "Portugal é dos países da Europa Ocidental com maior peso do comboio no movimento de mercadorias e dos poucos onde o principal operador do setor é rentável."
Por outro lado, o número de passageiros transportados tem vindo a diminuir desde os anos 80, "altura em que se multiplicou o número de autoestradas e automóveis em circulação. Portugal é o único país da Europa que possui mais quilómetros de autoestradas e automóveis em circulação." (Furtado, 2020).
Lançado em 2016, o plano Ferrovia 2020 tem norteado os investimentos estratégicos a fazer no país, no que ao comboio diz respeito. Atualmente, estima-se que ficará concluído em 2023. Os objetivos são "aumentar a competitividade do transporte ferroviário, melhorar as ligações internacionais e promover a interoperabilidade ferroviária."
O plano define a modernização, eletrificação e expansão de corredores fulcrais: o Corredor Internacional Norte, o Corredor Internacional Sul, o Corredor Norte-Sul (Linha do Minho, Linha do Norte) e os Corredores Complementares (Linha do Douro, Linha do Oeste, Linha de Cascais e Linha do Algarve).
As frases anteriores foram retiradas da obra de Francisco Furtado, “A Ferrovia em Portugal: Passado, Presente e Futuro”, publicado na colecção FFMS, que corresponde a um excelente volume para os interessados nesta matéria. Depois do breve panorama histórico da ferrovia em Portugal, o autor apresenta a atual situação dos comboios portugueses, as suas fragilidades e potencialidades. Também se pode ficar a saber mais acerca dessa obra assistindo à sua apresentação, disponível online. Terminamos com a seguinte passagem do mesmo livro:
"Melhorar a mobilidade, diminuir o congestionamento e possibilitar um desenvolvimento sustentado nas grandes áreas metropolitanas do país não pode ser feito sem o caminho de ferro."